VIDAS SOBRE AZUL

romance

António J. de Oliveira

 

Data - 1ª edição: Fevereiro de 2004

Coordenação literária: Ângelo Rodrigues

Capa: fotografia de António J. de Oliveira e Ricardo Rosa

ISBN: 972-591-600-X

Depósito Legal: nº 205487/04

Formato: 21 x 14,5 cm

Páginas: 80

Preço de capa: 12,00 €

PREFÁCIO   

O rapaz tinha-lhe pedido que escrevesse um prefácio — “umas palavrinhas...” — no livro de poesia em prosa a que chamara Vidas sobre Azul. Ficara perplexo e um tanto irritado. Que disparate! Que podia um historiador, habituado a factos e a prosa concreta, escrever como introdução a uma obra lírica?! Folheou o texto, leu uns pedaços aqui e ali e radicou-se no que pensara. Aquilo não era para ele. Pôs o manuscrito de lado. Durante uns meses, ainda o conservou à vista, um pouco descontente com o que decidira. Depois, como o rapaz não tivesse insistido, guardou as Vidas sobre Azul na estante da literatura portuguesa contemporânea.
Entretanto, o rapaz mudara de vida. Singrara. Entrara para o teatro. Começara a afirmar-se e a ser falado. Há poucos dias, encontrara-o na rua, nem o conhecera, a princípio, tão mudado lhe parecera. “Então, já leu?” “Já li o quê?” “ O meu texto”. “Claro que já li. E gostei. O que não sei é o que escrever.” O rapaz olhara para ele, quase suplicante. “Só umas palavrinhas...”.
Voltara para casa. Havia qualquer coisa no olhar do rapaz que o movera, o impressionara, o obrigava a reflectir. Havia uma centelha de diferença naquele olhar. Não era um rapaz como os outros. Valia a pena pensar nele, fazer um esforço. Umas palavrinhas...
Foi buscar o livro à estante. Tornou a lê-lo, agora com mais atenção. E o André Breton, que tentara imitar na juventude já distante, subiu-lhe à memória. Via à sua frente um texto em grande parte surrealista, uma prosa poética em que os sons e as cores se sucediam sem parar, preterindo os conceitos. Os quinze capítulos, teoricamente diversos e narrativos, plasmavam-se num só. O conhecimento e o amor harmonizavam-se no belo.
Havia, é verdade, uma sequência capitular. Não havia, contudo, uma história. A riqueza do vocabulário conseguida, aparentemente sem esforço, desdobrava-se numa sucessão de monólogos com temas frequentemente recorrentes. A contestação da brutalidade e da boçalidade do dia-a-dia seria, porventura, o grande elo de ligação. Mediante o sonho saía-se delas para o amor, a ternura e a beleza, ansiados mais do que encontrados, carentes mais do que
existentes. O sonho concretizava-se em parte — mas só numa pequenina parte — no abraço ao campo e na rejeição da cidade, no regresso às origens e na exaltação da humildade e da igualdade. O que se entre-abria, porém, era a solidão, glosada constantemente como antídoto contra a mediocridade e a hipocrisia. Romanticamente, o rapaz refugiava-se, embora julgasse caminhar. E entrava na utopia, esse azul que triunfaria nas vidas sem nuvens.
Quedou-se a pensar se o rapaz teria razão....

A. H. de Oliveira Marques.

Na cidade, em dia com nuvens baixas, sem azul.

EXCERTO (Cap. I)   

«Vagueiam multidões, ouvem-se vozes que acabam em gargalhadas. São as crianças que pulam nas bermas do lago, são os pássaros que as imitam em alegres e estonteantes chilreares, com que recortam o azul por entre os troncos e as ramagens da vegetação. São gargalhadas que sobem colinas e mais colinas até se esvanecerem no azul celestial. São flores… milhentas flores que pigmentam em cor todo o redor deste pequeno idílico círculo que tem tudo para ser o paraíso.
Não há serpentes que acabem com a paz que reina sobre este azul. Não há silvados que nos machuquem o florir de nós próprios como seres vivos, antes nos revestem de alegria por nos sentirmos despertos para a vida e sabermos nela podermos continuar vivos, como vivo é todo este alvo azul que banha oceanos e mares, que nos reveste o olhar como reflexos de um céu que também se adivinha conter vida. São as pombas e as gaivotas, são as andorinhas e os pardais, e, outros tantos pássaros, nem lhes sei o nome, que planam ao sabor do tempo, como as várias raças de gente na cor e nos credos, nos costumes e na vida… Mas em comum a todos o céu encobre deixando-nos enaltecer os sequiosos desejos de sermos e podermo-nos sentir livres. Cada qual direcciona a sua própria liberdade consoante o sentir… mas todos podemos ser anjos sobre o celestial azul. Sê anjo do universo, que o céu se encarregará de te guardar de todo o mal que possa advir das tantas ervas daninhas que à face do Húmus começam a despontar (...)».

CONVITE

Editorial Minerva e o autor têm o prazer de convidar V. Exª, família e amigos, para a Sessão de Apresentação do romance VIDAS SOBRE AZUL de António J. de Oliveira (com prefácio do Profº Doutor A. H. de Oliveira Marques), a realizar no Sábado, dia 14 de Fevereiro de 2004, pelas 18:15 horas em

PALÁCIO GALVEIAS - Biblioteca Municipal Central

Sala das Colunas - Campo Pequeno - Lisboa

Coordenação da sessão e breve reflexão sobre a obra pelo Drº Ângelo Rodrigues (em representação da Ed. Minerva). Apresentação da obra e autor pelo Profº Doutor António João Saltão. Leitura de alguns excertos da obra por actores convidados (pelo autor).

OUTRAS OBRAS DO AUTOR   

A CIDADE DAS QUIMERAS

poesia, Fevereiro de 2000, Editorial Minerva, 72 pp.

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