1a Badana
O
crepúsculo descia rapidamente sobre os montes e na ilharga da estrada de
rampa inclinada, cortada no bordo da encosta revestida de mato e de
pinheiros bravos. O vento abanava as ramagens e criava uma sinfonia de
lúgubres acordes. Caía chuva miudinha nesse fim de tarde outonal, de céu
cinzento. Não havia vivalma e pressentia-se uma atmosfera enigmática,
cada vez mais ameaçadora. Era a natureza nua, com toda a sua força, que
parecia querer abater-se sobre o Renault parado na berma da
estrada, em plena serra, à luz crepuscular.
Ema desatou a chorar nervosamente,
possuída por um medo irreprimível e irracional, como que invadida por
espíritos malignos, chegados das trevas.
— Por que choras? — perguntou Mário,
aparentando indiferença à situação que se pressentia grave. — Há meia
hora que ninguém passa, de carro... ou de bicicleta, sequer. É
impossível que isto continue assim! Não estamos num deserto!... Tem
calma!
— Vamos morrer de frio, aqui! Em breve é
noite cerrada...
O marido saiu do carro, levantou a gola
do casaco, aproximou‑se do capot do Renault e levantou-o pela
centésima vez.
2a
Badana
O
Autor nasceu em 1930, na Figueira da Foz. Aos 15 anos começou a
interessar-se pela escultura, que desenvolveu como autodidacta, tendo
participado em várias exposições a partir de 1959 até fins dos anos 90.
Licenciou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa e foi Chefe de
Serviços de Urologia, nos Hospitais Civis de Lisboa (H.C.L.). Como
profissional, interessou-se particularmente: pela neuro-urologia, tendo
criado, nos H.C.L. a Consulta desta sub-especialidade e executado várias
cirurgias plásticas deste foro; pela Andrologia, tendo introduzido no
País o uso da prótese peniana de silicone e criado uma técnica original
de plastia fálica. Nos anos 70 criou uma Consulta de urossexopatia
neurogénia, nos H.C.L., que tornou extensiva ao Centro de Medicina de
Reabilitação de Alcoitão, onde foi consultor durante 20 anos. Foi um dos
membros fundadores da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica. Fez
inúmeras palestras e alguns artigos, uns publicados em livros nacionais,
outros na revista European Urology. Organizou um Simposium (1986) e um
Congresso (1993), sobre urossexopatia neurogénia. Está aposentado desde
2000.
Contracapa
O
CAÇADOR é um romance que aborda essa relação amorosa que tanta discussão
levanta e tantos malentendidos vai gerando: relação emocional
resultante dum conjunto de factores, entre os quais podemos destacar a
emoção, o desejo de cariz sexual e o domínio do outro, que podem levar a
comportamentos extremos, desde o de carinho ao da violência. O homem,
por razões biológicas e culturais, é mais propenso para a violência que
a mulher.
A emancipação de ambos
os géneros contribui para a queda de preconceitos e para a busca do
bemestar das sociedades ao promover a plena realização emocional, o
melhor equilíbrio psicosomático e a redução da violência. A compreensão
e aceitação dos direitos dos outros é fundamental para criar a empatia,
tanto melhor, quanto mais difundida e globalizada for.
Há na trama a abordagem
à discussão sobre educação sexual para os jovens, tão mal assumida desde
há dezenas de anos, no nosso país, que não teve ainda coragem para
ultrapassar o mito do “Pecado Original”, o que distorce qualquer
exposição racional sobre sexualidade humana e levanta problemas quanto
aos cuidados práticos a ter perante as doenças sexualmente transmitidas.
O “herói” da história é
um D. Juan provinciano e “self made man”, que consegue ascender na
escala social e satisfazer o seu instinto de predador sensual.
Publicar este livro foi/é
um acto de coragem e de fé, na abordagem da sexualidade numa outra
dimensão que não a actual, inquinada que está por repressões e omissões.
Parece-me assumir uma atitude de desafio e de ajuste de contas para com
uma sociedade que, repetidamente ao longo do livro, denomina de
repressiva e hipócrita.

Quem é o autor?
Estamos perante José
Pimenta Sousa Sampaio, nome que fragmentou, não em heterónimos – pois
não adquire o nome de outras pessoas - mas talvez em homómeros, cujas
partes são todas semelhantes, representando cada uma delas uma faceta,
que, no seu caso, têm em comum, o rigor, o humanismo e a resultante de
um pensamento livre dialéctico, constituindo a unidade do seu nome
completo: é José Pimenta ( o escritor ), é Sousa Sampaio ( o urologista
) e é apenas Sampaio ( o escultor ).
Quem é o médico Sousa
Sampaio?
Alguns dados biográficos
estão escritos numa das bandas do livro. Licenciou-se em Lisboa, na
Faculdade de Medicina, da então chamada Universidade Clássica de Lisboa.
Foi Chefe de Serviço de Urologia, nos Hospitais Civis de Lisboa (HCL),
interessou-se pela Andrologia, tendo introduzido no país o uso da
prótese peniana de silicone e criado uma técnica original de plastia
fálica. Interessou-se pela neuro-urologia, tendo criado em 1970, nos
HCL, a consulta de urossexopatia neurogénica que tornou extensiva ao
Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, onde foi Consultor
durante 20 anos. Interessou-se também pelas infecções urinárias de
repetição da mulher que relacionou com a actividade sexual. Logo,
estendeu à mulher o seu interesse e conhecimentos da sexualidade
feminina.
Fez inúmeras palestras e
tem alguns artigos publicados em revistas nacionais e estrangeiras.
Escreveu um capítulo “
Sexualidade e Deficiência – A sexualidade do Deficiente Motor por Lesão
Vertebro-Medular ”, na obra em dois tomos “ A Sexologia em Portugal “,
editada em 1987, pela Texto Editora, e um outro capítulo “ Doença de
Peyronie “ para a obra “ Andrologia Clínica “, um livro com mais de 700
páginas, editado pela Sociedade Portuguesa de Andrologia em 2000.
Organizou um Simposium e
mais tarde, em 1993, um Congresso sobre urossexopatia neurogénica.
Participou no 1º Congresso de Sexologia Clínica e foi fundador, em 1984,
da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica.
Sampaio, o escultor.
Começou a modelar o barro
aos 15 anos. Frequentou o atelier do Mestre escultor Leopoldo de
Almeida. Até hoje executou mais de 100 peças.
A primeira exibição
pública foi numa exposição colectiva na SNBA, nos anos 60.
Em 1970 expôs várias peças
durante o Congresso Luso-Espanhol de Fisiatria, na Figueira da Foz, onde
obteve o 1º Prémio. Tem duas esculturas em bronze na Biblioteca da
Ordem dos Médicos.
Tem peças escultóricas
eróticas, tendo exibido duas em 1998, no âmbito do evento mais vasto “O
Erotismo na Arte”, durante a exposição “ O Erotismo nas Artes
Plásticas – Artistas Médicos”.
Possui desenhos, alguns
eróticos, que foi executando desde o tempo do serviço militar
obrigatório, a maior parte com a função de esquiços para futuras
esculturas.
A sua obra é
maioritáriamente abstraccionista.
Interessa-se também pela
Fotografia, procurando ângulos que não permitam uma leitura imediata;
pretende que, para o observador, a imagem surja descontextualizada,
integrando-se assim no conceito abstraccionista.
Teve um atelier em Belém,
junto ao rio, num dos edifícios sobrantes da “Exposição do Mundo
Português”. É um frequentador de exposições de arte e foi um visitante
frequente da ARCO em Madrid.
O escultor Sampaio
abriu-se à escrita colaborando no livro de que fui coordenador “O
Erotismo na Arte”, publicado em 2003, que resultou de um ciclo de
conferências integrado no evento “O Erotismo na Arte” que ocorreu 1998,
por ocasião do Congresso Europeu de Sexologia que se realizou em Lisboa.
Escreveu o capítulo “Escultura Erótica Contemporânea”, onde afirmava: “
A Arte não é a vida, mas sim o reflexo da vida...... É o reflexo da
revolução sexual iniciada há algumas dezenas de anos, que está
representada nos exemplos trazidos que procuram desmistificar a
sexualidade humana, libertá-la dos tabus em que a religião a tem
procurado sufocar hipocritamente. É a verdade da sexualidade encarada,
antes de mais, com a potencialidade lúdica, em que o erotismo deve ser
desenvolvido e educado para uma formação gratificante, indispensável ao
bem-estar pessoal e social”.
Adivinha-se a influência
do pensamento de Wilhelm Reich, Herbert Marcuse, Reimud Reich e os
ventos de Maio de 68.
É grande a intranquilidade
e incómodo do médico face à doença, à morte, à injustiça social. Talvez
numa tentativa escapante, quiçá desesperada, procure enrodilhar-se no
Belo para mitigar as suas angústias. Grandes nomes da Literatura foram
médicos.
José Pimenta, o
escritor.
Pimenta, como homenagem ao
avô materno em cuja biblioteca iniciou as suas primeiras leituras
sérias, tendo sido impressivo o livro “A Besta Humana” de Zola.
O livro de José Pimenta
tem como tema central a estória de um caçador, no sentido etimológico e
metafórico da palavra, que se vai cruzando com as de outros personagens
que se vão transmutando, ao longo da narrativa, e seguem estórias mais
ou menos paralelas, mas que se vão entrecruzando, tendo sempre como
ponto comum o caçador. É um urdir de estórias cuja tecedura se vai
apertando cada vez mais.
O livro lê-se com
interesse e curiosidade sobre o que se vai passar a seguir, à maneira de
um romance policial que só o é nas últimas páginas, tornando-se a sua
leitura quase obsessiva.
É um romance passível de
múltiplas leituras. Aparentemente é um tema erótico, à boa maneira dos
livros de autores anónimos do século XIX, maioritariamente ingleses, em
que se fazia a crítica do sistema social vigente, em plena época
vitoriana.
Aqui também há uma
critica social, com uma excelente caracterização pessoal e social dos
vários intervenientes do romance, com a ascensão social do personagem
principal e de alguns com ele relacionados, obtida por via sexual. São
estórias de amores quase impossíveis que o autor vai tornando possíveis
pela sua lógica de pensador dialéctico.
Diz António Morais, no
prólogo, em perfeita sintonia com José Pimenta: ...”a monogamia é uma
prática que frequentemente violenta a afectividade e os comportamentos
amorosos, recorrendo ao preconceito do direito de posse instituído pelas
sociedades que ainda não se adaptaram aos tempos actuais...”.
É o amor e a sexualidade
contados de uma maneira transversal, contemplando os vários estádios da
vida; infância, adolescência, adultícia e senescência, salpicados aqui e
ali por um discreto humor subtil e pela cultura do escritor que vai
perpassando ao longo das páginas do romance.
O escritor José Pimenta
foi escrevendo coisas sobre a sexualidade que o Dr. Sousa Sampaio lhe
ia segredando ao ouvido, profundo conhecedor das orientações sexuais
minoritárias, como homossexualidade, bissexualidade, identidade de
género (transexualidade) e parafilias, muitas. Há referências à guerra
colonial e memórias dolorosas com repercussões sobre a personalidade e
comportamentos do caçador.
Porque há dificuldade em
explicar o amor e a sexualidade chamo a atenção para o que o autor do
prólogo escreve, com o qual concordo plenamente: “... hoje sabe-se mais
acerca dos centros cerebrais ligados às emoções e aos comportamentos
com elas relacionados: a sexualidade faz parte desse complexo
neuroendócrino e cultural, que nos humanos atingiu um refinamento
variável de pessoa para pessoa.”
O livro contem muitas
reflexões sobre a sexualidade, o amor, as emoções, os sentimentos de
culpa e outros, com uma visão muito pacificadora, muito paradisíaca das
relações humanas, definindo José Pimenta o bem-estar como: “... a plena
realização emocional e melhor equilíbrio psico-somático e a redução da
violência. A compreensão e a aceitação dos direitos dos outros...”.
Há dois subtemas muito
importantes no livro: um é a educação sexual para os jovens; o outro é o
respeito pela criança que irá nascer, que deverá ser gerada por pais
saudáveis, intelectual e afectivamente responsáveis. Dai a importância
da Educação Sexual na prevenção de possíveis gravidezes.
Em resumo, é um
livro que poderá chocar algumas pessoas, mas é um livro honesto, que tem
como pano de fundo as reflexões do escritor José Pimenta e as do médico
Sousa Sampaio, sobre comportamentos sexuais e afectos, pretendendo
induzir os leitores a pensarem e a aprofundarem um tema tão complexo e
controverso como é a sexualidade humana
António Santinho
Martins
Médico Andrologista
Ex-Presidente da Sociedade
Portuguesa de Sexologia Clínica

CONVITE
A Editorial Minerva
e o autor,
têm o prazer de convidar V. Exª, família e amigos, para a sessão de
apresentação do romance O CAÇADOR de José Pimenta, a realizar no dia 26
(segunda-feira) de Maio de 2008 pelas 18:30 horas em
CENTRO HOSPITALAR
PSIQUIÁTRICO DE LISBOA
(HOSPITAL JÚLIO DE
MATOS)
Auditório
Avª
do Brasil, nº 53 – Lisboa
Autocarros da Carris: 7-31-33-35-45-50-68-83-85
Coordenação
da sessão e breve reflexão sobre a obra e autor pelo “animador de
ideias” Drº
Ângelo Rodrigues.
Apresentação da obra pelo Drº
António Santinho Martins.
Leitura de um excerto do romance pelo actor
von Trina.
