NO ENCALÇO DO REAL INALCANÇAVEL

poesia

Manuel Madeira

Prefácio Epistolar de António Ramos Rosa

 

Data: Fevereiro de 2005

Coordenação literária: Ângelo Rodrigues

Capa: Miguel d'Hera

Ás vezes a tua Alma foge de ti e vem

aqui brincar com estas cores,

Agradece por mim à tua Alma!

acrílico, água, ar e luz sobre tela, 50 x 40 cm, 2004

ISBN: 972-591-623-9

Formato: 21 x 14,5 cm

Páginas: 416

Preço de capa: 15 €

 

CONTRACAPA

Manuel Rodrigues Madeira nasceu em S. Bartolomeu de Messines, a 21 de Agosto de 1924, mas muito cedo foi levado para Faro, com a família, depois para Olhão, onde viveu até aos vinte e cinco anos de idade, altura em que se deslocou para Lisboa e aí permaneceu durante mais de quarenta anos. Interrompeu os estudos secundários por motivos económicos e só na terceira idade frequentou a universidade. Foi empregado no comércio e funcionário público do Ministério das Finanças, na Tesouraria da Fazenda Pública de Olhão, tendo sido demitido por motivos políticos. Foi preso e torturado pela PIDE várias vezes, no Aljube e em Caxias, de onde saiu pela última vez sob pressão da opinião pública, por ter contraído doença grave provocada pelos maus tratos infligidos pela polícia. Mais tarde, depois de recuperada a saúde, empregou-se numa empresa multinacional, onde trabalhou cerca de quarenta anos, como técnico de indústria agro-alimentar. Vive actualmente em Olhão.
Colaborou com poesia e ensaio em publicações clandestinas de divulgação cultural, no Algarve, nos anos 40 e posteriormente em jornais e revistas literárias, nomeadamente, «A Nossa Terra», de Cascais, «Planície», de Moura, «Cadernos do Meio Dia», de Faro, «Vértice», de Coimbra, «Seara Nova», de Lisboa; muitos dos seus trabalhos literários foram cortados pela Censura.
Figura na «Antologia de Poesia Portuguesa do Pós-Guerra», 1945-1965  Coordenação de Afonso Cautela e Serafim Ferreira  Editora Ulisseia  Colecção Poesia e Ensaio  Lisboa, 1965.
É co-fundador da revista literária «SOL XXI», de Carcavelos, na qual tem colaborado com poesia e ensaio.
Está representado na Antologia «100 Anos  Federico Garcia Lorca  Homenagem dos Poetas Portugueses»  Universitária Editora  Lisboa, 1998. Colaborou nos cadernos de poesia «VIOLA DELTA» XXIX e «VIOLA DELTA» XXX, Edições Mic, saídos respectivamente em Junho de 2000 e Janeiro de 2001.

CONVITE

 

Editorial Minerva e o autor, têm o prazer de convidar V. Exª, família e amigos, para a sessão de apresentação da obra de poesia NO ENCALÇO DO REAL INALCANÇAVEL de Manuel Madeira, (com prefácio epistolar de António Ramos Rosa) a realizar no sábado, dia 12 de Fevereiro de 2005, pelas 18:15 horas em

 

PALÁCIO GALVEIAS - Biblioteca Municipal Central

Sala das Colunas - Campo Pequeno - Lisboa

 Coordenação da sessão e breve reflexão sobre a obra pelo animador-cultural Ângelo Rodrigues. Apresentação da obra e autor pelo poeta António Ramos Rosa. Selecção, leitura de alguns poemas e performance musical (canções) pelo grupo de jograis O Seu Contrário (Cristina Estrompa, von Trina e Pedro Mulder).

 

Prefácio Epistolar de António Ramos Rosa

No nosso tempo havia cegos e surdos que falavam
e nos queriam cegar e ensurdecer.
Mas nós mantínhamos nos pulsos a tensão vertical
de um fogo verde de um outra vida.
Era um horizonte de palavras novas, de árvores reverentes.
Escrevíamos panfletos que às vezes nos fugiam dos bolsos
em revoadas que se confundiam com as aves.
Acampávamos em pinhais, cantávamos e dançávamos,
saudando o sol de um novo dia
e às vezes a polícia surpreendia-nos
com as metralhadoras aperradas contra nós.
Devorávamos os livros proibidos apaixonadamente
reunidos em exíguos quartos ou solitariamente.
Não importa se muitos se enganavam adorando um déspota

como um deus

porque a verdade estava na sua oposição
à tirania que nos roubava o sol,
à liberdade e à justiça da palavra viva.
Vivemos duramente com obstinada paixão
mas vivíamos solidários e lúcidos na sombra
e a fraternidade era a nossa força e o prémio da nossa luta.
Vencemos finalmente mas a madrugada da nossa liberdade
Foi apenas um momento. O que se seguiu depois
é um sistema que não sabemos como combater
porque a sua teia é anónima, de uma violência esparsa
que nos impede a defrontação
com os seus disfarces e os seus estratagemas.

Diz-me meu querido Manuel, os nossos sonhos diluíram-se,

apagaram-se

ou resta ainda um tronco verde com duas ou três folhas
e a nossa sede não morreu, ela é a nascente viva
tal como eu te procurava para partilhar o meu fogo ansioso
entre as anelantes aranhas da minha angústia obscura?
Será que resta uma centelha insubmissa
desse lume fascinante que nos deslumbrava como se fôssemos

náufragos

que procuravam um madeiro ou um giesta incendiada
para que sentíssemos que a vida era a vida com o seu horizonte

azul?

Sinto-me tão longe desses pássaros vermelhos
que esvoaçavam em torno das nossas cabeças ébrias
e não pousavam senão para subir mais alto
para além dos nossos braços e da nossa sede de uma maravilha

lenta

que pudéssemos abraçar como se fosse um tronco espesso
e a nudez solar num terraço branco?
Diz-me se estou perdido, se a minha voz é a de um estranho
ou ainda de um companheiro que ama o obscuro fascínio
das palavras que poderão reviver a nossa oscilante juventude?
O que subsiste ainda será o fulgor desses anos de delírio solar,
uma brasa sobre a cinza do tempo, uma brasa com as veias
dos nossos corpos que não sabem se estão vivos
ou se o tempo os pulverizou e os reduziu aos fragmentos

fumegantes

que são o que resta sob os ventos da noite
que nos vai apagando sob a sua cal obscura
que acabará por nos sepultar como se fôssemos mais do que

uma vertiginosa sombra?

O que resplandecia na nossa juventude, meu querido Manuel,
não eram bandeiras nem espelhos,
era o nosso próprio sangue,
era a nossa sede de uma gloriosa frescura,
era o vento em torno das nossas torres de vidro,
era o fogo que incendiava a nossa fragilidade.
Éramos acaso felizes? Não, não éramos,
mas o instante de alegria surgia tantas vezes
com a fresca urgência de um ramo de água
ou com a liberdade de um pássaro ébrio
que visse as linhas de cristal num labirinto negro.
Como eram longos os dias e como a solidão às vezes era cálida

e tranquila

porque pressentíamos essa rosa de veias
que era a terra fértil, a terra verde
que cintilava nas árvores e nos livros
em consonância com as raparigas e os cavalos
ou algum cordeiro perdido do seu rebanho.
Mas a angústia como um abutre sobre o dorso
rasgava-nos a carne e era a sombra densa
que nos roubava a lúcida visão das coisas.
Quantas vezes te confessei essa violenta ânsia
da minha fragilidade e foi contigo que travei
o diálogo mais fraterno e mais inteligente
quando eram tantos os que me rejeitavam
e alguns até me consideravam um traidor por não ser ortodoxo.
Sim, devo-te muito, meu querido Manuel,
E hoje aqui estou para celebrar esse encontro que se iniciou há

tantos anos

e continuou e continua tão intenso e vivo como então.

Somos das terras de maresia dos redemoinhos
de areia das vagarosas tardes imóveis
Quando nos abríamos nos meandros obscuros nos recintos

côncavos

acenávamos a um cálido rumor ou a uma respiração
que vinha do horizonte sabíamos os leves movimentos
da figura secreta e transparente que habitava o espaço
Conhecíamos o deserto a faminta paciência do deserto
e bebíamos os inclementes ventos generosos
que sopravam sobre as nossas palavras ébrias e incandescentes
A nossa alegria era um rodopio altíssimo
que vinha pousar sobre os malmequeres e sobre os sapatos

cobertos de poeira

Entre frescos alimentos entre sombras aplacávamos a ausência
quando o mar bramia ao fundo da garganta
Líamos nos portais das casas de cal ouvindo amadurecer
uma lua oceânica e o canto obstinado das cigarras
Embriagávamo-nos de uvas e de iodo fermentávamos o sonho
num desordenado coração que errava em misteriosas linhas
O sangue latejava as estrelas eram próximas as árvores

companheiras

As lagartixas corriam minúsculas e esguias sobre um solo

cintilante

Aproximávamo-nos da fonte Bebíamos por uma boca a rosa

fresca e total

Ninguém ninguém poderia conhecer as nossas ligeiras

tempestades

nem os nossos cárceres melodiosos nem as verdes túnicas
que nos cobriam nas noites cálidas de verão
Acariciávamos devagar um corpo e era o mundo
povoado de vozes escuras e de violentas cabeças
E sempre o longo rumor do mar o fogo dos barcos
e as vozes ao longe sob as estrelas o mistério da calma
amplitude obscura o lugar da nossa ausência o silêncio do azul

Manuel Madeira

Ó meu amigo Manuel o que foi a nossa vida
foi o que passou e já não passa
agora que nós a perdemos como uma sombra
ou uma chama fugitiva o que foi a nossa vida sabemos nós
dizer o que passou e sem passar passou

Ó meu amigo Manuel o nosso desejo de existir
o nosso grito dentro de uma chama a nossa vida
era o grito de um pássaro que voava sobre o mar
e caía sobre o mar?

Ó meu amigo Manuel que procurávamos nós
procurávamos e encontrávamos sonhávamos cantávamos
era sempre a mesma chama de uma primavera desconhecida
era sempre o mesmo vinho da mesma chama que bebíamos

Era a vida que bebíamos pelo mesmo copo
e viajávamos sempre no sol da mesma noite
no mesmo enigma na mesma chama na mesma sombra
era a nossa vida que nascia e que morria
no mesmo mar no mesmo grito na mesma chama
foi isso a nossa vida e foi a vida toda
foi a vida toda que nascia
ó meu amigo Manuel!

Encontrei em ti o maravilhoso amigo
para partilhar a deslumbrada adolescência
e as suas obscuras ânsias a sua vertigem verde
e o seu desamparo em inóspitos planaltos

Consagrávamos as essências do mundo
entre as palavras e o vinho em inebriada consonância
e amávamos o delicado esplendor dos nomes e das coisas
como se tivéssemos acordado de um sonho para o sonho do

real

Nunca poderei esquecer a pureza selvagem
do nosso encantamento sempre ébrio como se tivéssemos
a sonâmbula lucidez de uma lenta pupila

e permanentemente singrássemos num voluptuoso barco
que sulcava a terra entre a frondosa folhagem
e penetrava numa gruta onde uma nascente fluía

e era uma rapariga sorrindo com os braços abertos

Nós conhecemos o tremor frágil e a audácia ávida
da adolescência Uma estrela clandestina acompanhava-nos
Nós sentíamos a efervescência do mundo como se ele fosse

opaco

talvez porque nas veias o sangue era também efervescente

Amávamos os veios da terra a profusão do vento
e a grande rosa verde do mar com suas violentas ou pacíficas

pétalas

As palavras tinham o encanto e o aroma da secreta nudez
de um ser que se propagava em flutuantes nomes

Respirávamos o alvor do mundo apesar dos déspotas
e líamos os livros que iam mudar o mundo
mas também os poemas que já o transformavam

Tudo o que escrevíamos tinha o perfume dos montes
ora claro e fresco como um canavial ora sombrio como uma

cortina de fetos

ora esbraseado como uma giesta ou altissonante como um

girassol

Sentíamos que era a terra que vibrava aos nossos pulsos
e respirávamos a frescura de uma clandestina estrela do vento

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