Manuel
Rodrigues Madeira nasceu em S. Bartolomeu de Messines, a 21 de Agosto de
1924, mas muito cedo foi levado para Faro, com a família, depois para
Olhão, onde viveu até aos vinte e cinco anos de idade, altura em que se
deslocou para Lisboa e aí permaneceu durante mais de quarenta anos.
Interrompeu os estudos secundários por motivos económicos e só na
terceira idade frequentou a universidade. Foi empregado no comércio e
funcionário público do Ministério das Finanças, na Tesouraria da Fazenda
Pública de Olhão, tendo sido demitido por motivos políticos. Foi preso e
torturado pela PIDE várias vezes, no Aljube e em Caxias, de onde saiu
pela última vez sob pressão da opinião pública, por ter contraído doença
grave provocada pelos maus tratos infligidos pela polícia. Mais tarde,
depois de recuperada a saúde, empregou-se numa empresa multinacional,
onde trabalhou cerca de quarenta anos, como técnico de indústria
agro-alimentar. Vive actualmente em Olhão.
Colaborou com poesia e ensaio em publicações clandestinas de divulgação
cultural, no Algarve, nos anos 40 e posteriormente em jornais e revistas
literárias, nomeadamente, «A Nossa Terra», de Cascais, «Planície», de
Moura, «Cadernos do Meio Dia», de Faro, «Vértice», de Coimbra, «Seara
Nova», de Lisboa; muitos dos seus trabalhos literários foram cortados
pela Censura.
Figura na «Antologia de Poesia Portuguesa do Pós-Guerra», 1945-1965
Coordenação de Afonso Cautela e Serafim Ferreira Editora Ulisseia
Colecção Poesia e Ensaio Lisboa, 1965.
É co-fundador da revista literária «SOL XXI», de Carcavelos, na qual tem
colaborado com poesia e ensaio.
Está representado na Antologia «100 Anos Federico Garcia Lorca
Homenagem dos Poetas Portugueses» Universitária Editora Lisboa, 1998.
Colaborou nos cadernos de poesia «VIOLA DELTA» XXIX e «VIOLA DELTA» XXX,
Edições Mic, saídos respectivamente em Junho de 2000 e Janeiro de 2001.
CONVITE
Editorial Minerva e o autor, têm o prazer de convidar V.
Exª, família e amigos, para a sessão de apresentação da obra de poesia
NO ENCALÇO
DO REAL INALCANÇAVEL
de
Manuel Madeira,
(com prefácio epistolar de António Ramos Rosa)
a realizar no
sábado, dia
12 de
Fevereiro de
2005, pelas 18:15 horas
em
PALÁCIO GALVEIAS
- Biblioteca Municipal Central
Sala das
Colunas - Campo Pequeno - Lisboa
Coordenação da sessão e breve reflexão sobre a obra pelo
animador-cultural
Ângelo Rodrigues.
Apresentação da obra e autor pelo poeta António Ramos Rosa.
Selecção, leitura de alguns poemas e performance musical (canções) pelo
grupo de
jograis
O Seu Contrário
(Cristina Estrompa,
von Trina e
Pedro Mulder).
Prefácio Epistolar de António Ramos Rosa
No nosso tempo
havia cegos e surdos que falavam
e nos queriam cegar e ensurdecer.
Mas nós mantínhamos nos pulsos a tensão vertical
de um fogo verde de um outra vida.
Era um horizonte de palavras novas, de árvores reverentes.
Escrevíamos panfletos que às vezes nos fugiam dos bolsos
em revoadas que se confundiam com as aves.
Acampávamos em pinhais, cantávamos e dançávamos,
saudando o sol de um novo dia
e às vezes a polícia surpreendia-nos
com as metralhadoras aperradas contra nós.
Devorávamos os livros proibidos apaixonadamente
reunidos em exíguos quartos ou solitariamente.
Não importa se muitos se enganavam adorando um déspota
como um deus
porque a verdade estava na sua oposição
à tirania que nos roubava o sol,
à liberdade e à justiça da palavra viva.
Vivemos duramente com obstinada paixão
mas vivíamos solidários e lúcidos na sombra
e a fraternidade era a nossa força e o prémio da nossa luta.
Vencemos finalmente mas a madrugada da nossa liberdade
Foi apenas um momento. O que se seguiu depois
é um sistema que não sabemos como combater
porque a sua teia é anónima, de uma violência esparsa
que nos impede a defrontação
com os seus disfarces e os seus estratagemas.
Diz-me meu querido Manuel, os nossos sonhos diluíram-se,
apagaram-se
ou resta ainda um tronco verde com duas ou
três folhas
e a nossa sede não morreu, ela é a nascente viva
tal como eu te procurava para partilhar o meu fogo ansioso
entre as anelantes aranhas da minha angústia obscura?
Será que resta uma centelha insubmissa
desse lume fascinante que nos deslumbrava como se fôssemos
náufragos
que procuravam um madeiro ou um giesta
incendiada
para que sentíssemos que a vida era a vida com o seu horizonte
azul?
Sinto-me tão longe desses pássaros
vermelhos
que esvoaçavam em torno das nossas cabeças ébrias
e não pousavam senão para subir mais alto
para além dos nossos braços e da nossa sede de uma maravilha
lenta
que pudéssemos abraçar como se fosse um
tronco espesso
e a nudez solar num terraço branco?
Diz-me se estou perdido, se a minha voz é a de um estranho
ou ainda de um companheiro que ama o obscuro fascínio
das palavras que poderão reviver a nossa oscilante juventude?
O que subsiste ainda será o fulgor desses anos de delírio solar,
uma brasa sobre a cinza do tempo, uma brasa com as veias
dos nossos corpos que não sabem se estão vivos
ou se o tempo os pulverizou e os reduziu aos fragmentos
fumegantes
que são o que resta sob os ventos da noite
que nos vai apagando sob a sua cal obscura
que acabará por nos sepultar como se fôssemos mais do que
uma vertiginosa sombra?
O que resplandecia na nossa juventude, meu
querido Manuel,
não eram bandeiras nem espelhos,
era o nosso próprio sangue,
era a nossa sede de uma gloriosa frescura,
era o vento em torno das nossas torres de vidro,
era o fogo que incendiava a nossa fragilidade.
Éramos acaso felizes? Não, não éramos,
mas o instante de alegria surgia tantas vezes
com a fresca urgência de um ramo de água
ou com a liberdade de um pássaro ébrio
que visse as linhas de cristal num labirinto negro.
Como eram longos os dias e como a solidão às vezes era cálida
e tranquila
porque pressentíamos essa rosa de veias
que era a terra fértil, a terra verde
que cintilava nas árvores e nos livros
em consonância com as raparigas e os cavalos
ou algum cordeiro perdido do seu rebanho.
Mas a angústia como um abutre sobre o dorso
rasgava-nos a carne e era a sombra densa
que nos roubava a lúcida visão das coisas.
Quantas vezes te confessei essa violenta ânsia
da minha fragilidade e foi contigo que travei
o diálogo mais fraterno e mais inteligente
quando eram tantos os que me rejeitavam
e alguns até me consideravam um traidor por não ser ortodoxo.
Sim, devo-te muito, meu querido Manuel,
E hoje aqui estou para celebrar esse encontro que se iniciou há
tantos anos
e continuou e continua tão intenso e vivo
como então.
Somos das terras de maresia dos redemoinhos
de areia das vagarosas tardes imóveis
Quando nos abríamos nos meandros obscuros nos recintos
côncavos
acenávamos a um cálido rumor ou a uma
respiração
que vinha do horizonte sabíamos os leves movimentos
da figura secreta e transparente que habitava o espaço
Conhecíamos o deserto a faminta paciência do deserto
e bebíamos os inclementes ventos generosos
que sopravam sobre as nossas palavras ébrias e incandescentes
A nossa alegria era um rodopio altíssimo
que vinha pousar sobre os malmequeres e sobre os sapatos
cobertos de poeira
Entre frescos alimentos entre sombras
aplacávamos a ausência
quando o mar bramia ao fundo da garganta
Líamos nos portais das casas de cal ouvindo amadurecer
uma lua oceânica e o canto obstinado das cigarras
Embriagávamo-nos de uvas e de iodo fermentávamos o sonho
num desordenado coração que errava em misteriosas linhas
O sangue latejava as estrelas eram próximas as árvores
companheiras
As lagartixas corriam minúsculas e esguias
sobre um solo
cintilante
Aproximávamo-nos da fonte Bebíamos por uma
boca a rosa
fresca e total
Ninguém ninguém poderia conhecer as nossas
ligeiras
tempestades
nem os nossos cárceres melodiosos nem as
verdes túnicas
que nos cobriam nas noites cálidas de verão
Acariciávamos devagar um corpo e era o mundo
povoado de vozes escuras e de violentas cabeças
E sempre o longo rumor do mar o fogo dos barcos
e as vozes ao longe sob as estrelas o mistério da calma
amplitude obscura o lugar da nossa ausência o silêncio do azul
Manuel Madeira
Ó meu amigo Manuel o que foi a nossa vida
foi o que passou e já não passa
agora que nós a perdemos como uma sombra
ou uma chama fugitiva o que foi a nossa vida sabemos nós
dizer o que passou e sem passar passou
Ó meu amigo Manuel o nosso desejo de existir
o nosso grito dentro de uma chama a nossa vida
era o grito de um pássaro que voava sobre o mar
e caía sobre o mar?
Ó meu amigo Manuel que procurávamos nós
procurávamos e encontrávamos sonhávamos cantávamos
era sempre a mesma chama de uma primavera desconhecida
era sempre o mesmo vinho da mesma chama que bebíamos
Era a vida que bebíamos pelo mesmo copo
e viajávamos sempre no sol da mesma noite
no mesmo enigma na mesma chama na mesma sombra
era a nossa vida que nascia e que morria
no mesmo mar no mesmo grito na mesma chama
foi isso a nossa vida e foi a vida toda
foi a vida toda que nascia
ó meu amigo Manuel!
Encontrei em ti o maravilhoso amigo
para partilhar a deslumbrada adolescência
e as suas obscuras ânsias a sua vertigem verde
e o seu desamparo em inóspitos planaltos
Consagrávamos as essências do mundo
entre as palavras e o vinho em inebriada consonância
e amávamos o delicado esplendor dos nomes e das coisas
como se tivéssemos acordado de um sonho para o sonho do
real
Nunca poderei esquecer a pureza selvagem
do nosso encantamento sempre ébrio como se tivéssemos
a sonâmbula lucidez de uma lenta pupila
e permanentemente singrássemos num voluptuoso barco
que sulcava a terra entre a frondosa folhagem
e penetrava numa gruta onde uma nascente fluía
e era uma rapariga sorrindo com os braços abertos
Nós conhecemos o tremor frágil e a audácia ávida
da adolescência Uma estrela clandestina acompanhava-nos
Nós sentíamos a efervescência do mundo como se ele fosse
opaco
talvez porque nas veias o sangue era
também efervescente
Amávamos os veios da terra a profusão do vento
e a grande rosa verde do mar com suas violentas ou pacíficas
pétalas
As palavras tinham o encanto e o aroma da
secreta nudez
de um ser que se propagava em flutuantes nomes
Respirávamos o alvor do mundo apesar dos déspotas
e líamos os livros que iam mudar o mundo
mas também os poemas que já o transformavam
Tudo o que escrevíamos tinha o perfume dos montes
ora claro e fresco como um canavial ora sombrio como uma
cortina de fetos
ora esbraseado como uma giesta ou
altissonante como um
girassol
Sentíamos que era a terra que vibrava aos
nossos pulsos
e respirávamos a frescura de uma clandestina estrela do vento